Autorretrato

text in Portuguese

Em cada som meu existe algo que me pertence e algo que não controlo. 

Uma linguagem foi estudada, saqueada, tratada, adquirida, assimilada, estruturada, testada, debatida, maturada, refletida, criticada, difundida, teorizada, registada, arquivada. A outra não sei de onde vem. Entrelaçam-se as duas, fazem amor doce ou caoticamente dependendo da situação, e saem cheias de vida num sopro. Assim descrevo o meu som. O nosso som - o meu e o desse algo que me invade, acrescenta umas pitadas de existência, e me salva. O som que floresceu. Assim me perco no labiríntico privilégio da poesia, esse jardim de camélias.

Horizonte

text in Portuguese

É necessário resistir à tentação do discurso fácil - aquele que reduz o mundo à lógica binária do forte e do fraco, que aceita o poder material como leme das nossas vidas, que normaliza a morte do intelecto, a erosão da unicidade e o esvaziamento do sentido crítico. Se, por um lado, esses discursos oferecem conforto imediato, por outro, cobram um preço elevado: a anestesia da consciência e a renúncia a tudo o que exija o exercício do pensamento. Em oposição, deixemo-nos invadir pelo belo, não como fuga, mas como requisito quotidiano.

Em Uma beleza que nos pertence, o poeta José Tolentino Mendonça escreve que esta “não é um atributo, um campo à parte, uma moeda de troca, um consolo, uma técnica, um código simbólico, um artifício, uma especialidade, um suplemento, como se o ser e a beleza se pudessem, de alguma forma, separar. A beleza é uma metafísica concreta, uma teologia visual, um ponto de união entre o mundo invisível e o mundo visível, encarnação do espírito, forma sensível daquilo que é suprassensível. Contra o mundo domesticado dos discursos, a beleza é a inevitabilidade de uma experiência.” Nesta perspetiva, a beleza não adorna a realidade, funda-a; não suaviza o mundo, interpela-o; não serve o discurso, desinstala-o.

Eu conheço um país belo, um país que muitos insistem em dizer que não existe, talvez porque não se enquadra nas narrativas do cinismo, do ressentimento ou da desistência. Esse país não é ingénuo nem idealizado; é frágil, plural e incompleto. E, por isso mesmo, exige vigilância. Levantar, dia após dia, o manto de algum ódio que o cobre é uma tarefa quotidiana, feita de gestos pequenos, escolhas conscientes e recusa ativa da indiferença.

A beleza não é um luxo reservado aos tempos de abundância, nem um adorno supérfluo em períodos de crise. É critério, horizonte e resistência. Não deixemos, portanto, que a beleza perca para o degredo. Sabemos, por experiência, que quando isso acontece, não é apenas o belo que se perde, mas também a possibilidade de um futuro habitável.