Autorretrato
text in Portuguese
Em cada som meu existe algo que me pertence e algo que não controlo.
Uma linguagem foi estudada, saqueada, tratada, adquirida, assimilada, estruturada, testada, debatida, maturada, refletida, criticada, difundida, teorizada, registada, arquivada. A outra não sei de onde vem. Entrelaçam-se as duas, fazem amor doce ou caoticamente dependendo da situação, e saem cheias de vida num sopro. Assim descrevo o meu som. O nosso som - o meu e o desse algo que me invade, acrescenta umas pitadas de existência, e me salva. O som que floresceu e deu frutos. Onde me perco no labiríntico privilégio da beleza, esse jardim de camélias.
Eletroencefalograma
text in Portuguese
Uma piscina de ideias onde mergulho de cabeça
Quando os cálculos correm bem, ergo o cocuruto à superfície da água, afasto os cabelos da vista, passo a mão pelos olhos, abro-os lentamente, subo as escadas, seco-me ao sol por uns instantes e repito a cena, variando a acrobacia e o estardalhaço provocado, o qual avalio já fora da piscina, pela quantidade de água espalhada no exterior. Primeiro prémio se acordar e molhar aquela tia insuportável que dormia a sesta, segundo se o nadador-salvador apitar, terceiro se salpicar alguém na espreguiçadeira, menção honrosa se a mãe me disser o clássico “sai daí, já tens os dedos roxos”.
Quando os cálculos correm mal, vou com a cabeça ao chão, fico inconsciente a boiar à superfície de barriga para baixo. A tia insuportável não acorda, o nadador-salvador está na palheta com o colega, nas espreguiçadeiras todos leem veementemente um qualquer best-seller, que posicionam à altura dos olhos, a mãe inclusivamente.
Nessa viagem que faço, um mundo abre-se, desbloqueiam-se-me ideias, encontro aquela frase que andava à procura há meses ali no fundo do tanque, um som que escutara e que me trazia tantas saudades é-me tocado de novo ao ouvido, vai subindo e subindo de intensidade até me acordar. Respiro agonicamente, ufa que ainda estou vivo, abro os olhos rapidamente, subo as escadas, não incomodo ninguém ali deitado à beira da piscina, entro encharcado no hall do hotel, o olhar da recepcionista ruiva persegue-me, acha-me doidinho com certeza, ligo-lhe pívia, subo ao 13° piso, abro a porta do quarto e sento-me na escrivaninha. De caneta na mão e a pingar a carpete, algo novo está para nascer.
Horizonte
text in Portuguese
É necessário resistir à tentação do discurso fácil - aquele que reduz o mundo à lógica binária do forte e do fraco, que aceita o poder material como leme das nossas vidas, que normaliza a morte do intelecto, a erosão da unicidade e o esvaziamento do sentido crítico. Se, por um lado, esses discursos oferecem conforto imediato, por outro, cobram um preço elevado: a anestesia da consciência e a renúncia a tudo o que exija o exercício do pensamento. Em oposição, deixemo-nos invadir pelo belo, não como fuga, mas como requisito quotidiano.
Em Uma beleza que nos pertence, o poeta José Tolentino Mendonça escreve que esta “não é um atributo, um campo à parte, uma moeda de troca, um consolo, uma técnica, um código simbólico, um artifício, uma especialidade, um suplemento, como se o ser e a beleza se pudessem, de alguma forma, separar. A beleza é uma metafísica concreta, uma teologia visual, um ponto de união entre o mundo invisível e o mundo visível, encarnação do espírito, forma sensível daquilo que é suprassensível. Contra o mundo domesticado dos discursos, a beleza é a inevitabilidade de uma experiência.” Nesta perspetiva, a beleza não adorna a realidade, funda-a; não suaviza o mundo, interpela-o; não serve o discurso, desinstala-o.
Eu conheço um país belo, um país que muitos insistem em dizer que não existe, talvez porque não se enquadra nas narrativas do cinismo, do ressentimento ou da desistência. Esse país não é ingénuo nem idealizado; é frágil, plural e incompleto. E, por isso mesmo, exige vigilância. Levantar, dia após dia, o manto de algum ódio que o cobre é uma tarefa quotidiana, feita de gestos pequenos, escolhas conscientes e recusa ativa da indiferença.
A beleza não é um luxo reservado aos tempos de abundância, nem um adorno supérfluo em períodos de crise. É critério, horizonte e resistência. Não deixemos, portanto, que a beleza perca para o degredo. Sabemos, por experiência, que quando isso acontece, não é apenas o belo que se perde, mas também a possibilidade de um futuro habitável.